O desafio de construir memória de marca

  Muito falamos sobre memória de marca, mas como podemos fazer isso em um mundo com tanta informação, que é tão fácil passar despercebido? Como podemos ocupar uma parte do cérebro dos clientes e não sermos descartados?

   Antes de tudo, precisamos entender que memória é a nossa capacidade de codificar, armazenar, reter e subsequentemente recuperar informações e experiências passadas no cérebro humano.  Basicamente, a memória é a soma total das nossas lembranças, fazendo com que possamos considerar as experiências, fatos, impressões, habilidades e hábitos previamente aprendidos no passado para tomar decisões no presente e construir o futuro.

   Em termos mais fisiológicos ou neurológicos, a memória é, em sua forma mais simples, um conjunto de conexões neurais codificadas no cérebro. É a recriação ou reconstrução de experiências passadas pelo disparo sincronizado de neurônios envolvidos na experiência original.  A memória não é codificada de forma linear ou sequencial, e sim por blocos ou conjuntos, formando um quebra-cabeça com peças espalhadas por várias áreas do cérebro.

  Podemos dizer que a memória é formada em algumas partes do cérebro, como o lobo temporal, o neocórtex temporal, o hipocampo e o córtex pré-frontal. Para que as informações cheguem a essas partes do cérebro, é necessário que captemos os estímulos do ambiente através dos sentidos. Temos tantas informações chegando a cada segundo que não conseguimos dar conta de todas racionalmente, então nosso cérebro faz um filtro do que pode ser relevante ou não.

   É notável que os consumidores não compram ou se interessam por uma marca ou produto apenas por suas funcionalidades e preços (itens que consideramos racionalmente), mas também por diversos outros fatores que não necessariamente fazem parte do produto ou serviço. Usar estímulos emocionais cria um vínculo com a marca, de forma que um sentimento específico pode trazer à tona uma experiência que o consumidor teve anteriormente.

   As experiências geram valores sensoriais, emocionais, cognitivos, comportamentais e de identificação. É necessário atrelar os valores da marca com essas experiências. Os clientes precisam senti-los. Toda interação que você proporcionar ao cliente, vai gerar uma emoção junto à marca.

  O desafio aqui é provocar as emoções corretas e que façam sentido com o propósito da marca. Não adianta gerar emoções negativas ou que não vão ajudar no crescimento e gestão positiva da marca. Inclusive, não adianta só pensar na identidade visual, usar a psicologia das cores e não alinhar todos os pontos de contato com as emoções que a marca busca transmitir. Isso deve ser aplicado em branding, posicionamento, atendimento, ponto de venda, e assim vai.

 Há muitas empresas que fazem um excelente trabalho, com propostas que rompem os padrões tradicionais, trazendo atendimento humanizado e amigável ao cliente. Percebemos um esforço grande de algumas marcas em trabalhar a comunicação com emoções, mas nem sempre há uma estratégia para a construção de uma memória de marca.  Então como começar um trabalho de construção de memória de marca?

Lembre-se dessas três dicas essenciais:

  •  Relevância: Nosso cérebro aprende constantemente coisas novas e as categoriza em experiências positivas ou negativas. Esse registro influencia numa escolha futura. Então sempre que fizer uma ação de comunicação, avalie se realmente o conteúdo é relevante para a marca. Se a mensagem está conectada com os valores e o propósito da marca e se não há receio de reavaliar. Podemos fazer uma analogia para facilitar o entendimento. Imagine que nosso cérebro é o buscador do Google e a marca é escolhida por um algoritmo. Todos os esforços de branding devem considerar que marcas relevantes ativam o sistema de dopamina, ou recompensa, no cérebro e isso influencia fortemente nosso comportamento de compra. Lembre-se que uma marca disputa uma batalha de consciência em nosso cérebro, por isso não desperdice recursos em ações que vão comunicar mais do mesmo. Foque em ações que criem novas conexões e fortaleçam o propósito da marca.
  • Coerência: Quanto mais você coordenar os esforços de branding pelo tempo e espaço mantendo uma coerência na comunicação, mais chances e oportunidades de sua marca ser a escolhida. Coerência significa que uma mensagem deve ser semelhante em diferentes pontos de contatos, criando uma percepção na mente do consumidor. Toda relação estabelecida ao longo do tempo passa a dar à marca um senso de confiabilidade, ou não. Por isso é preciso o alerta que confiança não é criado do dia para a noite ou em uma única campanha de marketing. Isso acontece ao longo dos anos, através de cada ponto de contato e interação do consumidor com a marca. O resultado da coerência torna mais fácil para o cérebro recuperar a memória de marca, e assim ganhar a batalha da consciência no nosso cérebro.
  • Conexão: Quanto mais interativo o ambiente de branding for para o consumidor, mais chances de estabelecer conexões com a marca. Mas aqui, mora um grande receio por parte dos gestores, que é o medo de se posicionar numa causa. A interação melhora a memorização de uma marca. Quanto mais participação ela proporcionar, mais chances ela terá. E quando entendemos que esses três elementos estão relacionados, ou seja, se eu como gestor avalio minhas ações primeiramente no aspecto da relevância, seguido da coerência, eu gero elementos para a minha tomada de decisão em relação à exposição da marca. Temos uma tendência natural de confiar naqueles que são como nós, que possuem valores iguais ou defendem as mesmas causas que nós. Formamos tribos e defendemos algo que somos a favor ou lutamos com forças iguais a algo que somos contra. É necessário que uma marca crie um posicionamento emocional e eleja seu grupo de atuação, nunca seremos o ideal de todos.

  Os três pontos devem fazer parte de uma estratégia de marca. Fique atento, porque uma memória de marca para ser consolidada necessita de atenção, repetições e ideias associativas. E quanto mais rápido ela for retida, mais rápido será esquecida, se não for trabalhada criando conexões emocionais.

Daphné Chermont

Connections Director

 


Marcas competem nos cérebros das pessoas

Por que algumas marcas são bem-sucedidas, enquanto outras falham? Quem já não fez essa pergunta? Atuo com marketing há mais de 20 anos e por todas as empresas que passei ou que atendi como cliente, todas sem exceção, tinham como objetivo vender mais e alcançar resultados. Porém, ao longo dessa trajetória, também me deparei com empresas que antes sólidas, estavam em total decadência.

  Nos últimos anos a busca por resultados esteve no centro das estratégias de negócios de grandes empresas, e hoje os gestores entendem que as estratégias de negócio devem estar centradas no cliente, proporcionando uma experiência positiva com a marca, antes, durante e após a compra em si, de forma a promover a lealdade do cliente e com isso obter o lucro. Será que de fato em algum momento da nossa história o cliente não esteve no centro?

  A verdade é que o impacto da era digital na gestão de marketing criou uma mudança de um processo fixo para algo que é mais fluido, que vai criar muitos desafios e oportunidades para nós no futuro. Entre elas, entender que marcas não competem em mercados, mas sim nos cérebros das pessoas. Brand é memória.

  A força de uma marca está relacionada ao número de memórias relevantes que foram geradas na mente dos consumidores. E a capacidade de criar novas memórias por meio de experiência de marca é uma questão de sobrevivência para as empresas na economia do século 21.

  Marcas não são criadas por persuasão consciente, eles são criados de forma inconsciente por meio de emoções, que geram sentimentos e, com eles, memória na mente das pessoas.

Marcas não competem em mercados, mas sim nos cérebros das pessoas.

  Então, a capacidade de criar novas memórias por meio de experiência de marca (brand experience) é fundamental para a sobrevivência de uma marca. Para as empresas, a criação de memória
de marca é um investimento em uma compra futura ou fluxo de compras, por parte dos seus consumidores.

  Se entendermos como se constrói memória, temos a chave para trabalhar uma nova forma de praticar Marketing e construir memória para nossas marcas.

  Construir memória de marca para as empresas é uma questão de sobrevivência para manter-se viva na mente das pessoas.

O que é Neurobranding?

  Neurobranding é uma disciplina avançada que une a gestão de marca a insights da neurociência, métodos neurocientíficos, novas tecnologias e análise de dados para compreender o comportamento do consumidor e proporcionar que marcas construam associações no cérebro das pessoas, por meio de emoções, com elas sentimentos e, consequentemente, memória de marca, resultando em vantagens significativas para permanecer viva na mente do consumidor.

  Nosso cérebro não depende de memória isolada “bits”, mas sim na formação de redes neurais complexas ou padrões que representam memórias.

  Confiando na experiência do passado, quando um consumidor enfrenta uma situação nova, o cérebro compara a nova situação com os últimos padrões de memórias para ver se há qualquer faísca ou correspondências parciais. E a partir daí, toma a decisão de compra.

  Este processo de tomada de decisão geralmente não é consciente ou planejado. Pelo contrário, nossa mente automaticamente passa pelo processo de comparar os padrões de memória e então entrega uma “opinião de perito” se já lidamos com uma situação similar antes.

  Enquanto nosso cérebro consciente pode processar apenas 40 bits de informação por segundo, as estruturas inconscientes são capazes de trabalhar em torno de 10 milhões de bits a cada segundo. Dos cerca de 11 milhões de bits que fluem de nossos sentidos para o cérebro a cada segundo, quase 95% são processados e emocionalmente pontuados inconscientemente, sem desperdiçar um pensamento sequer.

  Com milhões de marcas registradas no mundo e bilhões de anúncios inundando o nosso cérebro a cada dia, não é surpreendente que a maioria das decisões de compra tem de ser feitas de forma automática por nosso cérebro. Caso contrário, ficaríamos loucos.

  O progresso na neurociência forneceu insights sobre como a mente funciona. O desenvolvimento de métodos neurocientíficos somados às novas tecnologias e à análise de dados nos possibilita compreender como as pessoas consomem o que consomem, e porque consomem.  Acessamos informações sobre como as pessoas consomem entretenimento, produtos e serviços, sociabilizam, comunicam e influenciam outras pessoas. E tudo isto tem um profundo impacto sobre as estratégias de marketing e a gestão de marca.

  Portanto devemos entender que uma marca é uma constante evolução mental e precisa ter propósito para ganhar a batalha da consciência na mente das pessoas. Uma marca tem apenas uma chance de impressionar.

  As pessoas de hoje têm grandes expectativas para experiências de marca.  Conexões emocionais vão guiar o futuro dos negócios e isso passa por Neurobranding.

Regina Monge

Founder & CEO